domingo, 16 de maio de 2010

A Avó - The Grandmother




A imagem da avó, se bem que esbatida, continua presente. Revejo-a no modo terno como me acarinhava e lembro-a no seu jeito pesado, de se deslocar pela casa, roupas escuras que sempre lhe conheci e os hábitos familiares e rotineiros que cumpria com rigor e sem queixumes. Está junto ao fogão de lenha, desfaz pacientemente o feijão que servirá para a sopa (num passador, ela deita o feijão cozido e, com pancadas ritmadas, tenta desfazê-lo com uma colher de pau), sem pressas. Olho-a extasiada! Nem sequer posso ajudá-la; a colher é muito grande e é preciso bater com força. Lembro-a sentada a engomar, o ferro pesado, a carvão (sentada, porque corpo doente lho não permitia de outro modo). E nas épocas festivas, confeccionando as broas e os coscorões - tudo colocado na mesa comprida e escura da sala.
Às quintas-feiras, pontualmente , chegavam para o jantar os filhos já casados, as noras, os genros e os pequenos. Quantas brincadeiras à volta dos pontapés que dávamos uns aos outros, por debaixo da toalha. E os nossos pais, que nos lançavam olhares reprovadores! O avô mantinha, lá no topo, uma presença austera, mas era quinta-feira… Nós sabíamos bem que isso nos era permitido e mesmo recusar a sopa, se por acaso nos agradava menos. O sorriso do avô, só para nós e às quintas-feiras. Grande festa!
Vem-me à memória os anos 43 ou 44, com o racionamento de alguns géneros alimentícios. Se bem que nos não tenha afectado, porque o avô fiscalizava o mercado municipal e vinham todos os dias as alcofas repletas de tudo muito fresco, apenas eu o sentia no rebuçado ou na colher de mel que a avó colocava no fundo da minha caneca para adoçar o leite com café. É que o leite continuava bem amargo e eu reclamava sempre. Nos tempos livres a avó tricotava, em fio de algodão, lindas meias rendadas para os netos. Usava cinco agulhas muito finas de metal, cujo tilintar e arte no manejo me causava sempre grande surpresa. Nos momentos menos bons ou nos dias de temporal, ela recolhia ao quarto e rezava diante do grande oratório, suspenso numa das paredes e no qual se misturavam imagens de santos de aspecto mais ou menos triste, flores secas e pavios que, alimentados a azeite, emprestavam ao ambiente um cheiro não muito agradável. No conjunto, e para mim, era um local misterioso e sinistro. Detestei sempre o velho oratório!
A avó acompanhou entusiasmada a minha entrada na escola primária. Esmerava-se nas minhas batas, sempre lindas, e destinara em casa, num cantinho, uma secretária para os meus afazeres, que os tínhamos nessa altura e em quantidade, todos os dias.
Cresci com ela até aos nove anos. De repente, a avó ficou muito doente. Ninguém me preveniu, mas eu sabia que ela ia deixar-nos. Sentava-me junto dela o tempo todo. Quiseram afastar-me. Recusei. Levaram-na numa tarde de sol. Seguiram-se noites de pesadelos e mágoa. Com muita dificuldade, retomei naquela casa o meu lugar, agora sem ela.

Maria da Piedade Pinheiro
1992

domingo, 9 de maio de 2010

O Telefone preto - The black Telephone



Triste andava o Telefone preto
do senhor Carreto...
Fora desligado
e no armazém ficara guardado...
Dias sem fim passaram
os ventos mudaram
e, agora feliz, o Telefone preto
do senhor Carreto
(disse um passarinho)
todo se consola
pois foi instalado
lá no Jardim-escola...
Entre jogos e danças
sardas e tranças
transborda carinho
e está rodeado
por tantos amores...
Vinte e três crianças
e dois professores...

Mizangala

segunda-feira, 3 de maio de 2010

Noeme - Noeme


A Casa de Pedra, em terra encantada
ao luar foi semeada...
Regada com Amor
da pedra se fez flor...

Mizangala

segunda-feira, 26 de abril de 2010

O Alfinete e a Agulha (2009) The pin and the needle



O Alfinete disse à Agulha
"Vou picar essa borbulha
tão vermelha, empoleirada
na ferida maltratada...
Cumprir já com a missão
sagrada da Medicina
ao doente dar a mão
(ajudar é minha sina)
não ficar sem fazer nada
só espetado na almofada
e não me tentes demover
pois a tratar quero morrer..."
Respondeu a velha Agulha
com a calma de uma Mãe
que já muitos filhos tem
"Alfinete, não sejas tolo
olha que a borbulha
é só uma cereja no bolo!!!"

Mizangala

domingo, 18 de abril de 2010

O caranguejo (2009) The crab



Da rocha, mergulho
No Mar, me embrulho
e aqui vos conto
ponto por ponto
o que oiço e vejo...
Caranguejo
sussurrando pensativo
(para isso tem motivo)
às costas de uma baleia
que sempre lhe dá boleia...
"Troçam por apenas ser capaz
de andar devagar
e para trás...
Porém, neste Mundo violento
apressado e desatento
de futuro comprometido
rumando no mau sentido
virado às avessas
vos digo, cantando ao luar...
melhor é andar sem pressas
e fazê-lo a recuar..."

Mizangala

domingo, 11 de abril de 2010

Caracol em espiral - Spiral snail



Solidão de monge
sem parar... mas devagar
pois assim se vai ao longe...
Casca em espiral
imune ao temporal
ao calor infernal...
Sorri, cumprimenta o Sol
o irmão Caracol...

Mizangala

domingo, 4 de abril de 2010

Lar - Home


É lar colmeia
ou formigueiro?
Ninho na árvore
ou mar inteiro?
É lar casa quente
sem aquecedor?
Casulo de seda
vaso de barro
com uma flor?
Colo de pai
barriga de mãe?
Livro guardando
os poemas de alguém?

Teresa Martinho Marques