Sisuda e fria a Borracha, por magia tudo apagava e não se importava... Os rabiscos no caderno o fogo do Inferno a memória ao computador a combustão no motor a luz da Lua os candeeiros na rua o fogão a chama da paixão o charuto, cachimbo ou cigarro a pintura no jarro... Porém, contente estou pois por sorte escapou para ele e para ti esta história que escrevi...
1. Embora o dicionário do Rodrigo Fontinha tenha lá escarrapachado que uma bicha - no sentido de fila, entenda-se! - é «um grupo de pessoas em fileira, uma a uma ou duas a duas, etc.», é mentira. A bicha lusitana não responde a este apelo. Nas bichas da nossa terra, as pessoas nunca se colocam «uma a uma» ou «duas a duas», colocam-se sempre em «etc.». Por natureza, a bicha nacional é um magote, tudo ao molho e fé em Deus.
Ainda consultei o Moderno Dicionário da Língua Portuguesa - por ser moderno, precisamente -, mas a definição também não está actualizada. Diz lá que bicha é um «grupo de pessoas dispostas em linha recta, lado a lado ou atrás umas das outras», mas não é. As pessoas, quando se dispõem em linha, nunca é em linha recta, é numa linha muitíssimo abstrusa. Talvez porque está por inventar a geometria do civismo em Portugal.
As pessoas nunca se põem atrás umas das outras, põem-se em cima umas das outras. Em vez de se colocar na bicha à espera da sua vez, cada um coloca-se na bicha à espera da vez dos outros. O pessoal põe-se onde calha ou onde acha que melhor pode iludir os seus competidores.
2. Quando o padeiro pergunta «Quem é que está a seguir?», há pelo menos dez bocas que se abrem, esfomeadas de vez, prontas para comer o vizinho que se atrever a responder primeiro. O homem, à cautela, ainda diz «Tenham calma, que há pão para toda a gente», mas ninguém se comove. Cheira a complicação na padaria do bairro.
Havendo peixeira na bicha, isso então é o fim do mundo: o caldo entorna-se em dois tempos, jorra molho de escabeche por tudo quanto é rival de ocasião. Ninguém escapa, na procura de um bode expiatório para o mal-estar que se instala. «A culpa disto tudo é do Governo!», ouve-se. O silêncio que se segue é de assentimento.
A confusão só acalma quando alguém mais bem composto, com o ar de quem está habituado a ser obedecido, diz serenamente: «Quem está primeiro é a senhora do casaco encarnado.» Num só movimento, todos os olhares convergem na dita cuja. Há uma breve hesitação. E, antes que alguém tenha tempo de pôr em dúvida o que quer que seja, uma voz fininha aproveita a pausa: «Quero um pão grande e doze papo-secos.»
O padeiro retoma o vaivém rotineiro, atendendo o pedido da senhora do casaco encarnado. A crise, essa, segue dentro de instantes. O melhor é dar uma volta e regressar mais tarde.
3. Quem diz padeiro, diz mercado, talho ou mercearia. Diz café de esquina à hora do almoço em pé ou bicha de autocarro em hora de ponta. Onde quer que seja necessário o pessoal ordenar-se, é certo e sabido que se estabelece o caos, a entropia aumenta. Só há civilidade na bicha quando não há ninguém à frente de ninguém. A bicha nacional é a imagem da falta de organização do País.
Acresce que a lusa gente gosta muito de bichas. Onde houver um amontoado informe de pessoas, está lá uma bicha portuguesa, com certeza. Nem que seja para verem melhor o acidente. Para poderem contá-lo em pormenor, enquanto se queixam das bichas.
Era uma vez um Pato Cinzeiro de artesanato muito limpo e sossegado com requinte colocado na mesa de cabeceira sobre um pano rendilhado engomado quinta-feira... É, portanto por enquanto um Pato cinzeiro feliz um bibelot da avó e do avô sem fumo no nariz nem cigarro ardido queimando o vidrado polido... Está grato, assim o Pato cinzeiro de artesanato de vidrado polido a quem ignorou o fim para o qual foi concebido...
De noite e de dia varria... Varria a Vassoura as ruas de Moura e, quanto mais varria mais lixo havia... O Mundo, não pensava o Mundo sujava mas a Vassoura de Moura não se rendia ressaltando a evidência de que a virtude maior da Vassoura (seja ou não de Moura) é por certo a paciência... Mizangala
A Pipa entrou em contracções e deu à luz dois garrafões... O terceiro, sempre a rir não quis sair nadando como um peixinho naquele ventre de vinho... A mãe, zangada não pôde fazer nada e, zombeteiro o filho terceiro só nasceu p'lo S. Martinho...
Um pisco-de-peito-ruivo (foi ele sim, de certeza) veio recitar um poema depois de comer sementes num pratinho colocado no secreto, iluminado verde jardim da Teresa.
Onde as palavras são peixes onde as palavras são aves que pinta, sem ninguém ver, com cores que lhe emprestou em segredo a Natureza.
Bem hajas, Eduardo Martinho, pela ideia desta nova aventura conjunta, pela edição de fotografia e tratamento de imagem e por todo o trabalho, carinho e paciência. Bem hajas, Mãe Piedade, por seres quem és e estares sempre presente em todos os momentos. Bem hajas, mana Teresa, pela orientação dada e por todas as cores que dás a tantas palavras... Bem hajam, Filomena e Bruno, por todos os mimos e apoio. Bem hajam os amigos, autores dos textos, que me permitem viajar ao mundo das Palavras e das Cores... Bem hajas, Arco-íris, que me ensinaste as Cores...
Pinturas
Mizangala
Fotografia
Paulo Martinho
Tratamento de Fotografia e Edição de Imagem
Eduardo Martinho
Aviso à navegação
A cor da palavra "Mizangala", num dialecto de certa tribo africana, significa "eternamente jovem"...