domingo, 18 de julho de 2010

A Borracha - The Eraser



Sisuda e fria
a Borracha, por magia
tudo apagava
e não se importava...
Os rabiscos no caderno
o fogo do Inferno
a memória ao computador
a combustão no motor
a luz da Lua
os candeeiros na rua
o fogão
a chama da paixão
o charuto, cachimbo ou cigarro
a pintura no jarro...
Porém, contente estou
pois por sorte escapou
para ele e para ti
esta história que escrevi...

Mizangala

domingo, 11 de julho de 2010

Barcos - Boats


Barcos são
instantes azuis
com sonhos presos
num carrocel.
Miragens
e reflexos
de vidro
madeira
e papel.

Teresa Martinho Marques

domingo, 4 de julho de 2010

A Bicha Nacional - National queue





1. Embora o dicionário do Rodrigo Fontinha tenha lá escarrapachado que uma bicha - no sentido de fila, entenda-se! - é «um grupo de pessoas em fileira, uma a uma ou duas a duas, etc.», é mentira. A bicha lusitana não responde a este apelo. Nas bichas da nossa terra, as pessoas nunca se colocam «uma a uma» ou «duas a duas», colocam-se sempre em «etc.». Por natureza, a bicha nacional é um magote, tudo ao molho e fé em Deus.

Ainda consultei o Moderno Dicionário da Língua Portuguesa - por ser moderno, precisamente -, mas a definição também não está actualizada. Diz lá que bicha é um «grupo de pessoas dispostas em linha recta, lado a lado ou atrás umas das outras», mas não é. As pessoas, quando se dispõem em linha, nunca é em linha recta, é numa linha muitíssimo abstrusa. Talvez porque está por inventar a geometria do civismo em Portugal.

As pessoas nunca se põem atrás umas das outras, põem-se em cima umas das outras. Em vez de se colocar na bicha à espera da sua vez, cada um coloca-se na bicha à espera da vez dos outros. O pessoal põe-se onde calha ou onde acha que melhor pode iludir os seus competidores.

2. Quando o padeiro pergunta «Quem é que está a seguir?», há pelo menos dez bocas que se abrem, esfomeadas de vez, prontas para comer o vizinho que se atrever a responder primeiro. O homem, à cautela, ainda diz «Tenham calma, que há pão para toda a gente», mas ninguém se comove. Cheira a complicação na padaria do bairro.

Havendo peixeira na bicha, isso então é o fim do mundo: o caldo entorna-se em dois tempos, jorra molho de escabeche por tudo quanto é rival de ocasião. Ninguém escapa, na procura de um bode expiatório para o mal-estar que se instala. «A culpa disto tudo é do Governo!», ouve-se. O silêncio que se segue é de assentimento.

A confusão só acalma quando alguém mais bem composto, com o ar de quem está habituado a ser obedecido, diz serenamente: «Quem está primeiro é a senhora do casaco encarnado.» Num só movimento, todos os olhares convergem na dita cuja. Há uma breve hesitação. E, antes que alguém tenha tempo de pôr em dúvida o que quer que seja, uma voz fininha aproveita a pausa: «Quero um pão grande e doze papo-secos.»

O padeiro retoma o vaivém rotineiro, atendendo o pedido da senhora do casaco encarnado. A crise, essa, segue dentro de instantes. O melhor é dar uma volta e regressar mais tarde.

3. Quem diz padeiro, diz mercado, talho ou mercearia. Diz café de esquina à hora do almoço em pé ou bicha de autocarro em hora de ponta. Onde quer que seja necessário o pessoal ordenar-se, é certo e sabido que se estabelece o caos, a entropia aumenta. Só há civilidade na bicha quando não há ninguém à frente de ninguém. A bicha nacional é a imagem da falta de organização do País.

Acresce que a lusa gente gosta muito de bichas. Onde houver um amontoado informe de pessoas, está lá uma bicha portuguesa, com certeza. Nem que seja para verem melhor o acidente. Para poderem contá-lo em pormenor, enquanto se queixam das bichas.


Eduardo Martinho

Março.1997

domingo, 27 de junho de 2010

Cinzeiro de artesanato - Handicraft ashtray




Era uma vez um Pato
Cinzeiro de artesanato
muito limpo e sossegado
com requinte colocado
na mesa de cabeceira
sobre um pano rendilhado
engomado quinta-feira...
É, portanto
por enquanto
um Pato cinzeiro feliz
um bibelot
da avó e do avô
sem fumo no nariz
nem cigarro ardido
queimando o vidrado polido...
Está grato, assim
o Pato
cinzeiro de artesanato
de vidrado polido
a quem ignorou o fim
para o qual foi concebido...

Mizangala

domingo, 20 de junho de 2010

A Vassoura de Moura - The broom of Moura



De noite e de dia
varria...
Varria a Vassoura
as ruas de Moura
e, quanto mais varria
mais lixo havia...
O Mundo, não pensava
o Mundo sujava
mas a Vassoura de Moura
não se rendia
ressaltando a evidência
de que a virtude maior da Vassoura
(seja ou não de Moura)
é por certo a paciência...

Mizangala

domingo, 13 de junho de 2010

A Pipa - The Barrel



A Pipa entrou em contracções
e deu à luz dois garrafões...
O terceiro, sempre a rir
não quis sair
nadando como um peixinho
naquele ventre de vinho...
A mãe, zangada
não pôde fazer nada
e, zombeteiro
o filho terceiro
só nasceu p'lo S. Martinho...

Mizangala

domingo, 6 de junho de 2010

Secreto jardim - Secret garden


Um pisco-de-peito-ruivo
(foi ele sim, de certeza)
veio recitar um poema
depois de comer sementes
num pratinho colocado
no secreto, iluminado
verde jardim da Teresa.

Onde as palavras são peixes
onde as palavras são aves
que pinta, sem ninguém ver,
com cores que lhe emprestou
em segredo
a Natureza.

Teresa Martinho Marques