terça-feira, 19 de abril de 2011

Um Arco-íris no sotão - A rainbow in the attic


Subiu ao sotão, o Marco
procurando um velho barco...
Viu a boneca de trapos
duas mantas de farrapos
pistolas de fulminantes
os livros velhos nas estantes
disfarces de Carnaval
uma barba de Pai Natal
a arca cheia de rendas
o fogão e duas tendas
um mapa do tesouro
o blusão todo de couro
as velas da Comunhão
aventais, saco do pão
azeite, petróleo, batatas
três fardas e quatro batas
um morcego dormindo
um duende sorrindo
grelhador, pó das formigas
duas bruxas com intrigas
o carro de bombeiros
soldados de chumbo inteiros
um unicórnio saltando
ratazanas conversando
e, para terminar
algo difícil de explicar
de entender
em que apenas Marco parecia crer...
Aquele menino diferente
no que diz e no que sente
acende com um botão
(sem fios de ligação)
um Arco-íris só seu
que em sonhos conheceu...
Então, brincam e riem, conversam juntos
sobre diferentes assuntos
e maravilham
pelo que partilham
pela amizade
pela cumplicidade
fazendo deste mistério
um caso sério...
Como nestas coisas do Coração
não tem que haver explicação
nada lhes pergunto
e encerro aqui o assunto...

Mizangala

domingo, 3 de abril de 2011

Lareira - Fireplace


Fogo, quem fala comigo
quando ouço crepitar?
És tu, será a madeira,
ou só a minha lareira
que gosta de conversar?

Ou são as palavras escritas
no papel de atear
que mesmo perdidas na cinza
não se conseguem calar?

Teresa Martinho Marques

sábado, 26 de março de 2011

O Nenúfar - The Nenuphar


Perguntou-me esse menino
na relva, fazendo o pino
se o Nenúfar do lago
se sentia incomodado
(trabalhando sem ser pago)
por andar sempre molhado?
Respondi-lhe que não
com convicção
pois senão
onde é que os sapos e rãs
coaxando ao Sol das manhãs
em grupos de três
ou quatro
(ou todos de uma só vez)
fariam circo e teatro
e no palco improvisado
todo o seu sapateado?

Mizangala

quarta-feira, 16 de março de 2011

O Pote do Incenso - The Incense Pot


Sobre o Pote do Incenso
há tudo, menos consenso...
Dizem alguns, não fazer bem nem mal
e que, meio sonso
meio insonso
é um caldinho sem sal...
Outros, eruditos
mais expeditos
realçam vantagens
virtudes
que a Alma faz viagens
e tens outras atitudes...
Quanto a mim, penso
que o Pote do Incenso
com bom senso
não quer saber de arrelias
nem tão pouco de consenso...
Deita fumo todos os dias
correu muitas dinastias
é isso que faz
é disso que é capaz
nisso persiste
e insiste
(é um direito que lhe assiste)...

Mizangala

domingo, 6 de março de 2011

O Detergente da loiça - The Dishwashing liquid



O Detergente da loiça
(por pouco que o Mundo oiça)
no esfregão bem ensopado
fala sempre apaixonado
de um cosmos belo, diferente
sem estrelas nem cometas
em que as bolas de sabão
são como pequenos planetas
gravitando alegremente
à volta do coração...
Explica às panelas
com emoção
que as bolas de sabão
todas diferentes, singelas
são Universos de luz
envoltos por um capuz
jardim de infância e paiol
onde brincam e explodem
(sempre que podem)
pequenos raios de Sol...
O Detergente da loiça
não tem mesmo quem o oiça
mas sem perder a moral
resta-lhe a consolação
suficiente, afinal
(e não é coisa de loucos)
de soltar a Alma aos poucos
nas bolinhas de sabão...

Mizangala

terça-feira, 1 de março de 2011

A Lagarta - The Apple Leech



Mudou de maçã
a Lagarta, esta manhã...
Está contente
porque sempre é, em simultâneo
igual e diferente...
Foi um acto espontâneo
de tipo instantâneo
e carácter momentâneo
já que, na macieira
mudar de casa, é brincadeira...
Ali, uma Lagarta
de vida farta
estreia nova residência
é claro, por conveniência
(sem perder a paciência)
com espantosa frequência...
Depois, a Lagarta não se atrasa...
faz buraco e come a casa
do telhado, feito casca
às delícias do tutano
no amido se enfrasca
(finda a cena e corre o pano)...
Mudou de maçã
A Lagarta, esta manhã...
rica vida
fácil, mas suicida
porque amanhã vem o tractor
com o pulverizador
carregado de insecticida...

Mizangala

domingo, 20 de fevereiro de 2011

O Enigma da Virgulação - Coma's enigma



Era uma vez uma vírgula bem colocada num texto, algures num decreto-lei. Não tinha bem consciência do seu valor. Dizia-se, porém, que tinha sido debitada por um ministro, pela módica quantia de 120 mil contos, numa folha de papel timbrado, daquelas que são, ou deviam ser, “A Bem da Nação”. É verdade que se sentira lisonjeada por ter sido desenhada por uma Parker dourada, mas, à parte isso, era uma vírgula modesta, bem comportada, que desejava apenas que a deixassem sossegada.

Estava a pobre coitada no tranquilo desempenho da sua função, quando, de repente, citada na televisão por uma jornalista e retomada depois num jornal pela pena de um deputado, a vírgula saiu inesperadamente do anonimato, tendo sido catapultada da sua condição de insignificância para a posição de autêntica vedeta do PdB (sigla de País das Bananas, onde se passou esta história). [É claro que uma tal projecção fez com que muitos ficassem roídos de inveja, com a ciumeira própria dos ignorados. Cada um manifestou-se à sua maneira: os estupefactos alinharam com os pontos de exclamação, os incrédulos juntaram-se aos pontos de interrogação e os peremptórios fizeram coro com os pontos finais.]

Não fosse o diabo tecê-las, o Grande Chefe levou duas semanas a abalançar-se na denúncia pública do perigo que seria deixar pairar a dúvida sobre a credibilidade das vírgulas nos decretos-lei do seu país. Compreende-se a hesitação: aquela vírgula poderia ser um trunfo para, ou contra, os adversários. Ganha a necessária afoiteza, foi anunciado aos quatro ventos: “É preciso esclarecer o caso da vírgula!”.

Entretanto, os PdBeses, que, apesar de serem um povo sofrido, tinham um grande sentido de humor, foram-se a elas, às vírgulas, e foi um regalo. Houve de tudo na brincadeira. Glosaram-nas em todos os tons, escreveram artigos, alguns sem pontuação (como fazia a Guidinha, nas suas redacções de boa memória), inventaram anedotas, compuseram cantigas, eu sei lá. Se tivesse sido dada uma ordem ao Banco Central das Vírgulas para lançá-las no mercado para regularizar o sistema, a inundação não teria maior.

Quanto aos partidos políticos representados no Parlamento, uns eram de opinião que se devia ir à procura da vírgula, e mesmo de outras vírgulas malparadas, outros manifestavam a sua perplexidade perante tanto zelo neste caso e o deixa-andar-Maria-vai-com-as-outras noutros casos virgulentos, e os restantes entendiam que o Parlamento não devia lançar-se em correrias atrás da primeira vírgula que lhes pusessem à frente. Por fim, os parlamentares acordaram na ideia altamente original e inovadora de criar uma comissão para deslindar o mistério. Sabe-se que foram distribuídas lupas pelos membros da Comissão de Inquérito à Vírgula. Ignora-se o resto.

Tudo indica que esta história, como outras, terminará bem. Provavelmente a vírgula casa-se com um ponto, têm um filho, o ponto e vírgula, e são felizes para sempre.

Eduardo Martinho
Março 1993