domingo, 27 de junho de 2010

Cinzeiro de artesanato - Handicraft ashtray




Era uma vez um Pato
Cinzeiro de artesanato
muito limpo e sossegado
com requinte colocado
na mesa de cabeceira
sobre um pano rendilhado
engomado quinta-feira...
É, portanto
por enquanto
um Pato cinzeiro feliz
um bibelot
da avó e do avô
sem fumo no nariz
nem cigarro ardido
queimando o vidrado polido...
Está grato, assim
o Pato
cinzeiro de artesanato
de vidrado polido
a quem ignorou o fim
para o qual foi concebido...

Mizangala

domingo, 20 de junho de 2010

A Vassoura de Moura - The broom of Moura



De noite e de dia
varria...
Varria a Vassoura
as ruas de Moura
e, quanto mais varria
mais lixo havia...
O Mundo, não pensava
o Mundo sujava
mas a Vassoura de Moura
não se rendia
ressaltando a evidência
de que a virtude maior da Vassoura
(seja ou não de Moura)
é por certo a paciência...

Mizangala

domingo, 13 de junho de 2010

A Pipa - The Barrel



A Pipa entrou em contracções
e deu à luz dois garrafões...
O terceiro, sempre a rir
não quis sair
nadando como um peixinho
naquele ventre de vinho...
A mãe, zangada
não pôde fazer nada
e, zombeteiro
o filho terceiro
só nasceu p'lo S. Martinho...

Mizangala

domingo, 6 de junho de 2010

Secreto jardim - Secret garden


Um pisco-de-peito-ruivo
(foi ele sim, de certeza)
veio recitar um poema
depois de comer sementes
num pratinho colocado
no secreto, iluminado
verde jardim da Teresa.

Onde as palavras são peixes
onde as palavras são aves
que pinta, sem ninguém ver,
com cores que lhe emprestou
em segredo
a Natureza.

Teresa Martinho Marques

domingo, 30 de maio de 2010

Rimando contra a maré - Rhyming against the tide



Sempre perdendo o pé...
rimando contra a maré...

Mizangala

domingo, 23 de maio de 2010

Banha da cobra computadorizada - Computed panacea



Quando eu era miúdo, a feira de São Martinho exercia sobre mim um enorme fascínio. Retenho na memória o ritual da fotografia de família tirada ao lado da floreira na barraca convertida em estúdio fotográfico, a magia das cornetas de barro donde colegas meus da escola primária arrancavam sons que eu nunca consegui imitar, a atracção das bolas de borracha que nunca tive para substituir aquelas que fazia com meias que pedia a minha Mãe, a papalvice daqueles que se deixavam ludibriar em jogos de cartas enganosos em cima de chapéus de chuva abertos... e, sobretudo, a espantosa verve dos vendedores de banha de cobra, a que não faltava a dita enrolada ao pescoço, que promoviam um líquido de cor duvidosa a remédio milagroso para qualquer doença.

Hoje, quase 50 anos depois, a banha de cobra vende-se nas grandes cidades sob uma forma diferente, mais sofisticada, metendo até computador! O panfleto, que encontrei na caixa de correio, reza assim:

Aos doentes que sofram de: tonturas; esquecimentos; sensação se movimentos no cérebro; zumbidos e outros sons nos ouvidos; moléstias esquisitas no céu-da-boca e garganta; problemas e dores nos peitos; insensibilidade, frigidez, impotência; ejaculação precoce; próstata; fibromioma; dores e outros problemas de ovários, trompas, vagina, etc.; impossibilidade de engravidar; tumores; esgotamento cerebral e stress; colite nervosa; queda do cabelo; inchaços dos pés e outros; mareios e desmaios; fraquezas gerais; depressão; tremuras; dores e outros problemas de coluna; operados que sentem as queixas voltar; tensão arterial baixa, alta ou inconstante; epilepsia; diabetes; insuficiência e outros problemas renais; prisão de pernas, braços, cãibras, ciática e outros problemas musculares; asma, bronquite, outros respiratórios; reumático e descalcificação dos ossos; celulite; inadaptação aos medicamentos; alergias, vitíligo e outros problemas de pele; picadas, dores, calores ou outras moléstias que dão sensação de movimento no interior do corpo; insónias, dormir inconstante; moleza e sonolência constante; prisão de ventre, úlcera e outros gastrointestinais; problemas de fígado, rins, vesícula e baço; alterações na cor da urina ou com sangue; sensação de ver ou ouvir coisas inexistentes; vertigens; bloqueios; moléstias da menopausa; enxaquecas; claustrofobia; medo a velocidade, pessoas, animais, altura, escuridão e outros; isolamento voluntário; lentidão exagerada nos actos; problemas circulatórios, colesterol; taquicardias e picadas no coração; gota e lumbago; sensação de muito frio ou muito calor nas mãos, pés e outros; problemas de crescimento, aprendizagem e conduta; Parkinson; angina de peito; aterosclerose; azias; bócio; cataratas; incontinências; enjoo; esquizofrenia; sinusite; hemorroidal; seborreia; sonambulismo; tosse nervosa e cancro; ... (uf!) ... o Instituto XPTO (chamemos-lhe assim) anuncia que tem o único dispositivo computadorizado disponível na Europa capaz de resolver estes casos de saúde, com base na detecção das insuficiências auro-bio-energéticas que impedem a cura das doenças pelos métodos convencionais. Só há um pequeno problema: os doentes têm de apressar-se a ir à consulta, porque está prevista para breve a saída do dispositivo para a América Latina para ajudar a debelar uma epidemia de cólera!

Ando com uma unha encravada e um calo assanhado. Como estes males não constam da lista, estou a pensar em ir este ano à feira da Golegã...


Eduardo Martinho

1992

domingo, 16 de maio de 2010

A Avó - The Grandmother




A imagem da avó, se bem que esbatida, continua presente. Revejo-a no modo terno como me acarinhava e lembro-a no seu jeito pesado, de se deslocar pela casa, roupas escuras que sempre lhe conheci e os hábitos familiares e rotineiros que cumpria com rigor e sem queixumes. Está junto ao fogão de lenha, desfaz pacientemente o feijão que servirá para a sopa (num passador, ela deita o feijão cozido e, com pancadas ritmadas, tenta desfazê-lo com uma colher de pau), sem pressas. Olho-a extasiada! Nem sequer posso ajudá-la; a colher é muito grande e é preciso bater com força. Lembro-a sentada a engomar, o ferro pesado, a carvão (sentada, porque corpo doente lho não permitia de outro modo). E nas épocas festivas, confeccionando as broas e os coscorões - tudo colocado na mesa comprida e escura da sala.
Às quintas-feiras, pontualmente , chegavam para o jantar os filhos já casados, as noras, os genros e os pequenos. Quantas brincadeiras à volta dos pontapés que dávamos uns aos outros, por debaixo da toalha. E os nossos pais, que nos lançavam olhares reprovadores! O avô mantinha, lá no topo, uma presença austera, mas era quinta-feira… Nós sabíamos bem que isso nos era permitido e mesmo recusar a sopa, se por acaso nos agradava menos. O sorriso do avô, só para nós e às quintas-feiras. Grande festa!
Vem-me à memória os anos 43 ou 44, com o racionamento de alguns géneros alimentícios. Se bem que nos não tenha afectado, porque o avô fiscalizava o mercado municipal e vinham todos os dias as alcofas repletas de tudo muito fresco, apenas eu o sentia no rebuçado ou na colher de mel que a avó colocava no fundo da minha caneca para adoçar o leite com café. É que o leite continuava bem amargo e eu reclamava sempre. Nos tempos livres a avó tricotava, em fio de algodão, lindas meias rendadas para os netos. Usava cinco agulhas muito finas de metal, cujo tilintar e arte no manejo me causava sempre grande surpresa. Nos momentos menos bons ou nos dias de temporal, ela recolhia ao quarto e rezava diante do grande oratório, suspenso numa das paredes e no qual se misturavam imagens de santos de aspecto mais ou menos triste, flores secas e pavios que, alimentados a azeite, emprestavam ao ambiente um cheiro não muito agradável. No conjunto, e para mim, era um local misterioso e sinistro. Detestei sempre o velho oratório!
A avó acompanhou entusiasmada a minha entrada na escola primária. Esmerava-se nas minhas batas, sempre lindas, e destinara em casa, num cantinho, uma secretária para os meus afazeres, que os tínhamos nessa altura e em quantidade, todos os dias.
Cresci com ela até aos nove anos. De repente, a avó ficou muito doente. Ninguém me preveniu, mas eu sabia que ela ia deixar-nos. Sentava-me junto dela o tempo todo. Quiseram afastar-me. Recusei. Levaram-na numa tarde de sol. Seguiram-se noites de pesadelos e mágoa. Com muita dificuldade, retomei naquela casa o meu lugar, agora sem ela.

Maria da Piedade Pinheiro
1992